Entrevista a The Legendary Tigerman

Entrevista a The Legendary Tigerman

'Misfit' ao vivo no Lux-Frágil

Paulo Furtado, ou The Legendary Tigerman, está de volta aos discos com Misfit. O mais recente álbum surgiu de uma viagem pelos Estados Unidos, onde o músico vestiu a pele de um homem inadaptado, que procura transformar-se em ‘nada’. Quisemos perceber melhor o conceito deste disco, mas também falámos sobre a evolução deste projeto. Misfit é apresentado no Lux, dia 22 de fevereiro.

Em 2016, viajaste pelos EUA com o realizador Pedro Maia e a fotógrafa Rita Lino. Dessa viagem nasceu um filme, Fade into Nothing, que serviu de inspiração para o teu novo álbum, Misfit...
Paulo Furtado: Tudo começou porque não queria compor mais um disco da forma tradicional, que implica escolher um grupo de canções e construí-lo de raiz. Também não o queria fazer em casa nem numa zona de conforto, nem sequer em part-time. Quando digo em part-time foi como o processo de composição do True, em que todos os dias ia para a sala de ensaios, depois voltava para casa, numa rotina quase de emprego diário. Queria compor o disco de forma mais espontânea e construir um universo maior onde o pudesse depois encaixar. Na altura, não sabia bem se o que ia sair dali era uma longa-metragem. Sabia que poderia ser uma curta, que pudesse ter uma versão em cine-concerto, algo mais experimental.

Quando chegaste aos EUA já tinhas uma ideia clara do que pretendias?
PF: Havia uma série de pressupostos, como a ideia deste homem ir para o deserto e se transformar em ‘nada’. Para mim era algo que tem muito a ver com esta era digital em que vivemos, de excesso de informação. Quis tentar lidar com isto de uma maneira mais orgânica e mais analógica. Tudo o que acontece no filme é um bocado uma reação a este excesso de informação, que depois acaba por não ser aprofundada. Não era necessário sair dos EUA com o disco, como aconteceu, mas queria muito compor pelos olhos deste personagem, deste Misfit, em que estou eu por detrás do personagem, ou melhor, está o Legendary Tigerman, e depois estou eu, o Paulo Furtado. Queria muito ter esta máscara, ser mais espontâneo a escrever sobre coisas que acontecessem na viagem. A escrita do filme, a rodagem, a composição, e depois a gravação do disco no Rancho de La Luna acabaram por ser processos de quase 24 horas por dia, muito focados no trabalho. Queria seguir o instinto relacionado com as coisas que ia encontrando na viagem, e com as soluções que ia encontrando no estúdio para fazer os arranjos das canções.

Escreveste as canções durante a rodagem e dentro desta mentalidade do misfit (desenquadrado). Como foi esse processo?
PF: Praticamente entrei no personagem durante as 24 horas do dia. O tempo era tão pouco em relação ao que nos tínhamos proposto fazer, que o modo como se trabalhava era um bocado exacerbante. Foi algo de muito intuitivo e instintivo. Pelo menos em relação à composição, forcei um pouco isso para me obrigar a ser mais espontâneo e para, de certa forma, reencontrar uma certa inocência na criação, por muitas vezes escrever cansado e sem conseguir pensar bem no que estava a fazer. Forcei-me a isso de forma consciente, mas a escrita acabou por ser inconsciente.

Este disco não poderia ter sido feito em mais nenhum sítio?
PF: Este disco em particular, não.

Regressaste depois para gravar o disco em Joshua Tree, Califórnia. Este é o primeiro disco em que passas do formato one man band para um trio, com músicos que já tinham andado contigo em tourneé no disco anterior…
PF: Isso foi acontecendo de maneira muito orgânica. Decidi mudar quando percebi que queria um baterista, que estava farto de tocar sozinho. Foi aí que as coisas começaram a mudar. A forma como o João Cabrita entrou a tocar saxafone foi algo muito espontâneo também. Ele tinha feito arranjos de sopros no True, depois, no concerto do Super Bock Super Rock, coordenou o naipe de sopros; depois houve outros concertos importantes em que tocou três ou quatro músicas, ou seja, começou a ter um papel mais presente nos concertos e a fazer parte de uma sonoridade que não existia antes. Acho que antes eu tinha um som particular porque tocava sozinho. De repente, com a entrada do Paulo Segadães (bateria) e do João Cabrita isto entrou em mutação e criou-se uma outra sonoridade que quis perseguir. Percebi que estávamos a fazer algo que, naquele momento, não se ouvia em mais lado nenhum, e quis explorar esse caminho. Para ser honesto, não acho que haja um caminho de marcha-atrás. Acho que, no True, acabei de explorar tudo o que me interessava explorar nesse formato one man band.

Como é que o público pode ter acesso a este filme? 
PF: O filme está a seguir a carreira dele em festivais de cinema. Irá passar brevemente na RTP2 e no segundo semestre irá passar nos canais TVCine, ou seja, segue uma vida independente do disco, mas há também o objeto físico, uma caixa que contém o filme e o disco.

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  • "O projeto The Legendary Tigerman
  • começou, desde o início, com uma ligação
  • muito grande à fotografia e ao cinema,
  • tão grande como a ligação à música."
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O disco vai ser apresentado no Lux a 22 de fevereiro. Podes adiantar um pouco sobre o concerto?
PF: Começámos a apresentação do disco em França. É curioso, porque nestas tournées de apresentação – e eu gosto muito de quando isso sucede e do que acontece às canções ao vivo –, acho que só ao quinto ou sexto concerto é que estabilizámos numa setlist preferida. Mudávamos a setlist todas as noites e fizemos as coisas muito diferentes tocando mais canções novas do que antigas. Estes espetáculos de lançamento são sempre muito interessantes porque as canções começam a mudar, e nós agora estamos quatro a tocar ao vivo e não três, também temos um baixo. Há muito tempo que não tinha um concerto onde me divertisse tanto e onde achasse que, musicalmente, as coisas cresceram muito. Estou muito ansioso para mostrar às pessoas esta nova faceta do projeto, a sua evolução. Acho que vai ser surpreendente para as pessoas.

Como reagiu o público francês?
PF: Foi incrível. Não sei dizer se foi melhor do que estava à espera porque ia com grandes expectativas, mas correu muito bem, especialmente Paris e Marselha, onde o concerto esgotou. Senti que as pessoas já conheciam as canções e o novo álbum, apesar de ter saído há relativamente pouco tempo em França. Marcou-se logo uma nova data em Paris para maio, num sítio maior. Em maio/junho vai haver outra tournée pela Europa, e fico muito feliz que o disco esteja a ter uma boa receção e boas críticas, e que os concertos resultem numa amplificação disso.

Notas a presença de muitos portugueses nestes concertos?
PF: Curiosa (e infelizmente), nos últimos anos tenho notado maior presença de portugueses nestes concertos em França, e digo infelizmente porque isso é fruto de uma emigração jovem forçada dos tempos da crise. Diria que, no geral, 80% das pessoas são locais e 20% portugueses.

Fix of Rock’n’Roll é o primeiro single retirado deste disco. Aqui acumulas as funções de compositor, intérprete, argumentista e realizador. És o verdadeiro homem dos sete ofícios. Consideras-te um control freak?
PF: Confesso que sou um bocado control freak, sim. Nem tinha muita vontade de realizar este videoclip, mas das hipóteses que havia nenhuma me interessava, nada que eu achasse suficientemente forte para esta música. De repente tive esta ideia, andava de volta de uns testes do realizador francês Clouzot para um filme chamado Inferno, e no qual eu baseei grande parte deste vídeo, nestes testes de cinema. Gosto muito de perceber como é que as coisas funcionam, de as estudar e de recolher experiências. Neste caso aproveitei para saber como é que tinham sido feitos os efeitos de luz e tivemos que construir uma máquina para as luzes poderem rodar e recriar o efeito pretendido. No fundo, o projeto The Legendary Tigerman começou desde o início com uma ligação muito grande à fotografia e ao cinema, tão grande como a ligação à música. Isso tem-me permitido explorar estas vertentes do cinema e da fotografia. Isto já tinha acontecido em vídeos de WrayGunn em que o Don’t you wanna dance também tinha sido eu a realizar. Há coisas em que, se sinto que tenho uma ideia válida e que funciona ali, já que o posso fazer, porque não? No fundo, é um bocado isso.

Em dezembro, participaste num “combate” no Coliseu, contra os Linda Martini (Rumble in the Jungle). Foi um conceito diferente de concerto. Como chegaram até ele?
PF: A ideia do combate surgiu porque ambas as bandas têm um percurso que tem muito a ver com o do it yourself. Ou seja, são bandas que vieram do underground, cujo percurso foi por combate próprio, por muita luta individual de criar carreiras, conquistar público e conseguir levar a música às pessoas. Tudo o resto foi um reforço de empatias que já existiam. Sempre o fiz, e acho que cada vez mais é necessário unir esforços e juntar as linguagens musicais. 

Depois de uma tour pelo país segue-se nova tournée internacional?
PF: Agora estaremos a tocar em Portugal até início de abril, fundamentalmente em teatros, visto que não há um circuito de clubes maiores no país. Depois em maio/junho arrancamos com uma tournée por Espanha, França, Suíça, Inglaterra, Bélgica e Holanda, se não me falha nada. Também já há festivais marcados para o verão, em Portugal e não só. Também há a possibilidade, desde o Masquerade, de editar nos Estados Unidos e de voltar a fazer tournées lá, que é algo que me deixa muito feliz. Lançar um novo disco é quase como começar do zero, fico sempre agradecido por continuar a ter espaço para tocar, para fazer discos e para as pessoas seguirem a minha música. É algo que me deixa absolutamente grato. Este Misfit é um bocado mais duro para algumas das pessoas que preferem um lado mais suave que a minha música, às vezes, também tem. Mas é bonito ver como as pessoas se relacionam de diferentes maneiras com os discos.

[por Filipa Santos | fotografias de Rita Lino]

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