Primeira Dama + Lena d´Água na ZDB

Primeira Dama + Lena d´Água na ZDB

Entrevista com Manuel Lourenço

  • © Inês Rocha
     © Inês Rocha

Aos 20 anos, Manuel Lourenço (mais conhecido por Primeira Dama), já lançou dois discos e foi um dos fundadores da editora independente Xita Records. Fã confesso da sonoridade pop de Lena d’Água, o músico desafiou a estrela dos anos 80 para um concerto dia 6 de janeiro, na Galeria Zé dos Bois.
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Manuel Lourenço de nascimento, Primeira Dama de nome artístico. Alguma explicação para este nome?

Quando me perguntam isso tento não explicar muito para não perder a mística, mas na realidade não há uma verdadeira razão. Gosto da figura política, da ideia de alguém que se casa com um presidente. Podia ser “primeiro cavalheiro”, mas “primeira dama” é muito mais bonito e permite-me uma série de outros jogos com a escrita. Não sou a pessoa mais normativa de sempre, mas também nunca tive problemas de identificação. Acho que, pelo menos no que toca à parte da linguagem, que é uma coisa que a mim me diz muito, se eu puder ajudar a quebrar alguma barreira de género na linguagem, já é importante.

O primeiro disco, Histórias por Contar, é do ano passado e, este ano, a Primeira Dama lançou um disco homónimo. Tem sido um projeto muito prolífero…
Tenho noção que isso não vai voltar a acontecer. Foram dois anos muito intensos e estou muito cansado. Lancei o primeiro disco e foi tudo muito rápido. Lembro-me de que nessse dia  toquei também a primeira música do segundo disco. Nessa altura percebi que queria fazer isto para o resto da vida e sentia necessidade de produzir muito para poder continuar. Os louros surgiram neste último ano. Ao mesmo tempo, sinto que esgotei uma certa disponibilidade, não só mental mas física.

O novo disco inclui pelo menos duas homenagens. Qual é a inspiração para escrever as letras?
A ideia de ser um cantautor é contar histórias. Nestes dois casos específicos (Rita e Mariana), falo de duas pessoas. No caso da Rita, estou a falar de uma pessoa em concreto, alguém especial, como todos temos nas nossas vidas. No caso da Mariana, estou apenas a usar um nome para falar de algo muito mais vago. A ideia é, através de uma apreciação simples, transmitir algo de maior e que toda a gente sente. Tento retratar a minha vida, que acho que é, inevitavelmente, a vida de toda a gente.

A cidade de Lisboa está muito presente neste disco. Foi propositado?
Até gostava que estivesse mais. Não foi algo muito pensado. Sempre vivi bastante a cidade. No ano em que escrevi o disco mudei-me para Arroios, que é uma zona onde se passa tudo e onde vive muita gente da minha idade, da classe artística. Vivi a cidade ao máximo e a experiência de passar nos mesmos sítios todos os dias, e de conviver com as mesmas pessoas, cria um imaginário poético que depois se reflete na escrita.

Este disco tem um agradecimento especial à Lena d’Água. Tendo nascido no final dos anos 90, de que forma tiveste contacto com a música dela?
A Lena traduz o simbolismo de uma popstar portuguesa, como houve poucas. Sabia que ela existia, ouvia muito António Variações quando era mais novo, e na adolescência tive a curiosidade de ir ouvir o que está para trás. Nestes últimos seis anos ouvi muito Lena d’Água, e isso coincidiu com a altura em que comecei a fazer música. Ela fez uma pop muito característica, que nunca mais se fez. Depois surgiu esta ideia… Vi vários concertos dela e senti que fazia falta reavivar essa linguagem pop. Estava à procura de um conceito de concerto para terminar este ciclo, e como o disco gira muito à volta desta pop, achei que era uma boa altura para fazer um concerto com a Lena d’Água e falei com ela.

Em janeiro, a Zé dos Bois recebe Lena d’Água e Primeira Dama. Como vai ser este concerto?
Vou abrir o concerto a solo, depois entra uma banda da Xita Records, que foi montada de propósito para este concerto. Tocaremos algumas músicas minhas, e, na segunda parte, vamos revisitar clássicos da Lena, com uma estética mais atual. Tentámos ser o mais fiéis possível aos originais, mas está a ser um grande desafio, porque são arranjos muito difíceis, mas acho que vai saber bem no final. A linguagem é pop e tem que ser uma coisa simples porque a boa pop exige isso.

Em novembro a Primeira Dama atuou no Vodafone Mexefest. Como foi essa experiência?
O Mexefest é um festival muito importante para a minha geração. As Noites de Verão no Museu do Chiado foi um evento que me impôs uma grande responsabilidade, mas o Mexefest foi muito especial, sem dúvida. É um festival grande, embora o público esteja muito dividido pois há muita coisa a acontecer ao mesmo tempo. Naturalmente,  nunca poderiam estar as 300 pessoas que estiveram no museu, mas ainda assim eram  mais de 100. Diverti-me imenso, e penso que terá sido o meu melhor concerto deste ano.

O que reserva 2018 à Primeira Dama?
Vou continuar a tocar nos sítios do costume e de resto não me vou preocupar com nada. Quero muito lançar um disco este ano, mas não vou impôr nenhum prazo nem nenhuma urgência profissional, porque neste momento não tenho energia para mais [risos]. Sinto que preciso de parar um bocado e limpar a cabeça para depois poder fazer um disco novo.
 
[Por Filipa Santos]
[Fotografias de Humberto Mouco]

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